O calvário do dia a dia

Um dos filmes mais importantes desta década já está disponível no acervo da Biblioteca Paulo Tolle: “Dois dias, uma noite” (Deux jours, une nuit) (DVD 791.436203 D658), filme dos irmãos belga Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Antes de qualquer coisa, é preciso falar sobre o cinema dos irmãos Dardenne. Humanista, intimista e sempre voltado a dar voz aos trabalhadores, às pessoas sem chance, segregadas. Apesar de suas histórias serem consideradas intensas, os Dardenne fazem questão de inserir, mesmo que forçosamente, um ponto de esperança. Como se, apesar de toda a maldade e egoísmo dos seres humanos, de todas as dificuldades da vida, de um sistema cada vez mais capitalista e voltado para a desumanização, ainda fosse possível acreditar no ser humano, nos pequenos gestos de solidariedade e humanidade.

Aqui, acompanhamos a jornada de Sandra (a extraordinária atriz Marion Cotillard, indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2015 pelo papel). Ela é uma operária que, após um período de depressão, precisa provar ao seu chefe que é capaz de trabalhar normalmente. Porém, o chefe percebe que sem Sandra, os operários conseguem produzir a mesma quantidade, sem prejuízo. Assim, o ele propõe uma votação onde os companheiros de Sandra devem decidir se ela deve ter seu emprego de volta, ou, ela sai do emprego e eles recebem um bônus de mil Euros em troca. Eles votam pela saída de Sandra. Desesperada e sem perspectivas, ela, com o apoio do marido, decide pedir mais uma votação. É sexta-feira; o chefe aceita. Sandra então terá dois dias e uma noite do final de semana para bater de porta em porta e tentar convencer seus companheiros de trabalho a abrirem mão do bônus e a aceitarem de volta.

Começa então um verdadeiro calvário, permeado de situações humilhantes e angustiantes. Sandra bate em cada porta e, inicialmente, segue-se um padrão: cumprimentos polidos, educados, até Sandra fazer o pedido para que revejam seus votos e pensem em sua situação. A partir daí, as reações são as mais diversas: egoístas; empáticas; constrangedoras ou violentas. Sandra precisa muito mais que encarar sua fragilidade pós-depressão: ela precisa retomar seu lugar no mundo, um mundo onde ter um emprego define, impiedosamente o ser na sociedade.

Por mais dolorosa que seja essa jornada e por mais empáticos que sejamos com a luta de Sandra, é impossível ficarmos indiferentes às dores e necessidades do outro: como pedir para um pai de família com filhos pequenos, morando num subúrbio quase miserável, que precisa fazer dois, três turnos de trabalho, para que ele abra mão de um dinheiro que pode ser a salvação da família?

Assim, somos brutalmente jogados nesse universo aparentemente banal, mas que nos revela questões ambíguas, relevantes, dolorosas: o que fazer quando a comida que botamos na mesa está prestes a acabar?

A luta de Sandra é mais do que garantir um emprego: é a própria luta da sobrevivência; de ter voz; de se levantar e agir. É a classe operária e sua solidariedade ante um mundo cada vez mais voltado à ganância e austeridade econômica, uma engrenagem que quer engolir os frágeis e sem oportunidades.

A jornada de Sandra é a nossa também. A luta dela é a nossa também.

Indicações de filmes e livros sobre “jornadas difíceis”:

LIVROS

– Cem anos de solidão – Gabriel Garcia-Márquez (863.6 G216c);

– Por um fio – Dráuzio Varella (926.1 V293p);

– O Regresso – Michael Punke (813 P984r);

– Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie (896 A235a);

– Big Jato – Xico Sá (869.93 S111b)

FILMES

– A viagem de Chihiro (DVD 791.4334 V598);

– Rocky – um lutador (DVD) 791.43613087 R684);

– Argo (DVD 791.436203 A693);

– 12 anos de escravidão (DVD 791.436203 D755);

– Guerra de Canudos (DVD 869.93 R467g);

– Dogville (DVD 813 T826d);

– Boyhood – da infância à juventude (DVD 791.436203 B791)

Por Jeam Camilo

Bibliotecário de Referência da Biblioteca Paulo Ernesto Tolle, formado em Biblioteconomia pela UNESP – Marília e Pós-Graduado em Roteiro Audiovisual pelo SENAC – SP. Também é escritor com dois livros publicados, além de roteirista de dois projetos cinematográficos em andamento.

Disponível em: http://blog.fecap.br/index.php/2016/06/28/o-calvario-do-dia-a-dia/#more-985